Hoje termina, na Alemanha, mais uma edição da IAA Transportation, uma das maiores vitrines mundiais do transporte rodoviário. E, acompanhando as novidades apresentadas por lá, uma coisa me chamou a atenção: talvez nós, brasileiros, sejamos pessimistas demais quando olhamos para a eletrificação do transporte.
Não há dúvida de que a Europa está muito avançada. Os caminhões elétricos apresentados na IAA impressionam pela autonomia, tecnologia e capacidade de recarga. O sistema MCS, de carregamento em megawatts, já permite chegar a 750 kW e as demonstrações realizadas durante a feira chegaram a 1.000 kW. A ideia é que o caminhão consiga aproveitar o próprio período de descanso do motorista para recuperar boa parte da carga.
Mas existe um detalhe que às vezes passa despercebido quando olhamos para a Europa: eles também estão enfrentando grandes desafios para colocar essa infraestrutura na estrada.
Segundo os números apresentados na própria IAA, existem atualmente cerca de 730 pontos de recarga acima de 350 kW destinados exclusivamente aos veículos pesados na União Europeia. Para 2030, a estimativa é de aproximadamente 35 mil pontos MCS.
E foi aí que comecei a pensar na realidade que estou vendo aqui no Brasil.
Na empresa onde trabalho, estamos acompanhando de perto a operação de caminhões elétricos e já temos carregadores na faixa dos 500 kW. Quando vejo as notícias da Europa e comparo com aquilo que está acontecendo na prática dentro da nossa operação, percebo que a distância talvez não seja tão grande quanto imaginamos.
Isso não significa que o Brasil esteja à frente da Europa na eletrificação. Seria exagero dizer isso. Temos desafios enormes, principalmente quando pensamos em uma infraestrutura pública capaz de atender caminhões elétricos em viagens de longa distância.
Mas também temos algumas condições que podem facilitar determinadas aplicações. Uma operação com rotas conhecidas, veículos que retornam para a mesma base e carregamento próprio consegue controlar muito melhor onde e quando o caminhão vai receber energia.
Talvez essa seja uma das principais lições que a IAA deste ano deixou para mim.
A Europa mostrou que o caminhão elétrico já deixou de ser apenas uma promessa. Mas também mostrou que produzir o caminhão é apenas uma parte da transformação. É preciso ter energia, carregadores, rede elétrica e infraestrutura suficientes para colocá-lo para trabalhar.
Por isso, talvez esteja na hora de nós, brasileiros, pararmos de olhar para tudo o que acontece lá fora como se estivéssemos sempre décadas atrás.
Temos problemas, sem dúvida. Mas também temos tecnologia, empresas experimentando novas soluções e operações que já estão colocando o caminhão elétrico para trabalhar de verdade.
No fim das contas, talvez a pergunta não seja se o Brasil está atrás da Europa.
Talvez seja: quanto daquilo que imaginamos que a Europa já resolveu ainda está sendo construído por lá?
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